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Selic, dívida e a proposta de Lara Resende: os números de 2019 a 2026 e 20 soluções até 2030

Edvandro Adolfo Pereira · Contador, perito contábil (CRC/MG 108013/O-9) · Publicado em 2 de novembro de 2026

Capa do artigo: Selic, dívida e a proposta de Lara Resende, o que os números mostram

Resumo: A reeleição do presidente Lula reabriu a discussão sobre os juros, puxada pelo artigo em que André Lara Resende propõe levar a Selic a cerca de 7,5% em doze meses. Este texto examina a proposta com dados oficiais de 2019 a 2026 e com a comparação entre as 20 maiores economias. A conclusão tem três partes. Lara Resende acerta o diagnóstico: o Brasil tem o segundo maior juro real entre as 20, a maior conta de juros e um resultado primário perto do equilíbrio. Erra ao tratar os juros como motor único e ao apoiar o remédio numa teoria que o próprio autor citado aceita apenas em parte. O mercado, por sua vez, acerta sobre o risco e erra ao olhar só para o gasto. O oitavo lugar projetado pelo FMI para 2027 existe, mas depende mais do câmbio do que da produção. Ao final, o texto apresenta 20 soluções e um exercício que mostra o limite de cada caminho: nenhum deles estabiliza a dívida até 2030.

Palavras-chave: taxa Selic; André Lara Resende; dívida pública; resultado primário; Lei Complementar 179/2021; meta de inflação; teoria fiscal do nível de preços; G20; FMI; gasto tributário.

13,75%Selic em 2 de novembro de 2026
2ºmaior juro real entre as 20 maiores economias
7,8%do PIB em juros, a maior conta das 20
82,93%do PIB em dívida bruta, em setembro

1 Por que esta discussão voltou agora

Em 25 de setembro de 2026, às vésperas da eleição, André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real e ex-diretor do Banco Central, publicou o artigo "Eu Acuso: uma proposta para eliminar os juros absurdos" (LARA RESENDE, 2026). Encerrada a eleição, a imprensa noticiou um possível encontro dele com o presidente, e o mercado financeiro reagiu mal. Em 2 de novembro, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, e o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, negaram ao g1 (G1, 2026) que haja encontro marcado ou proposta de tabelar juros ou de queimar reservas em avaliação no governo.

Portanto, a proposta é hoje um debate, não uma medida. Ela merece exame porque seu autor conhece o assunto e porque o problema que ela aponta é real. Um vídeo que circulou muito nas redes, de uma economista especializada em política pública, resumiu bem a discussão: o governo acelera com o gasto, o Banco Central freia com os juros, e a economia fica presa entre os dois. O vídeo também rejeita tanto a proposta de Lara Resende quanto o corte de gastos pedido pelo mercado, e sugere subir a meta de inflação. Este artigo testa as três posições contra os números.

O texto explica políticas públicas ao público em geral. Não é recomendação de investimento, nem orienta decisão financeira de ninguém.

Quadro 1. Os termos usados neste artigo, em linguagem simples
TermoO que significa
SelicTaxa básica de juros, fixada pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central.
Resultado primárioReceitas menos despesas do governo, sem contar os juros da dívida.
Resultado nominalO primário somado à conta de juros. É o déficit completo.
Dívida bruta (DBGG)Dívida bruta do governo geral: União, INSS, estados e municípios.
Juro realJuro descontada a inflação. Aqui se usa o juro real esperado, calculado com a inflação projetada para o ano seguinte.
LFTTítulo do Tesouro que rende a Selic. Quando a Selic muda, o custo dele muda junto.
FocusPesquisa semanal do Banco Central com as projeções do mercado.
Curva de PhillipsRelação segundo a qual desemprego baixo pressiona a inflação para cima.
Prêmio de riscoJuro a mais que o comprador de um título exige por temer inflação, calote ou desvalorização.
SpreadDiferença entre o juro que o banco cobra no empréstimo e o custo que ele paga para captar o dinheiro.

2 O que aconteceu de 2019 a 2026

Tabela 1. Brasil, 2019 a 2026 (valores de dezembro, salvo indicação; fluxos fiscais acumulados em 12 meses, em % do PIB)
AnoPIB real (%)IPCA (%)Selic (%)Desemprego (%)Déficit primárioJurosDéficit nominalDívida brutaR$/US$
20191,224,314,5011,10,844,975,8174,444,03
2020-3,284,522,0014,29,244,1013,3486,945,20
20214,7610,069,2511,1-0,724,984,2677,315,58
20223,025,7913,757,9-1,255,824,5771,685,22
20233,244,6211,757,42,286,568,8473,834,84
20243,424,8312,256,20,408,078,4776,276,19
20252,294,2615,005,10,437,918,3478,645,50
20262,2 (FMI)4,58 (set.)13,755,2 (set.)0,52 (set.)8,99 (set.)9,51 (set.)82,93 (set.)5,42 (30/10)

Fonte: Banco Central, Sistema Gerenciador de Séries Temporais (BANCO CENTRAL DO BRASIL, 2026a), séries 7326, 13522, 432, 24369, 5793, 5727, 13762 e 1, consultadas em 2/11/2026. Valor negativo no primário indica superávit. Juros: diferença entre nominal e primário. PIB de 2026: projeção do FMI, outubro de 2026 (FMI, 2026a). Dados de setembro confirmados na nota de estatísticas fiscais do Banco Central de 29/10/2026 (BANCO CENTRAL DO BRASIL, 2026b).

2.1 Cinco períodos

2019, juro baixo com regra fiscal. A Selic terminou o ano em 4,50%, com inflação de 4,31% e desemprego de 11,1%. Estavam em vigor o teto de gastos (EC 95/2016; BRASIL, 2016) e a reforma da Previdência recém-aprovada (EC 103/2019; BRASIL, 2019). A dívida bruta estava em 74,44% do PIB. Este ano importa para o debate: mostra que o Brasil já conviveu com juro baixo e inflação controlada.

2020, a pandemia. O regime extraordinário da EC 106/2020 (BRASIL, 2020) permitiu o maior déficit primário da série, 9,24% do PIB. A Selic caiu a 2%, e a dívida saltou para 86,94%.

2021 e 2022, inflação alta e dívida em queda. O IPCA chegou a 10,06% em 2021, a Selic subiu até 13,75%, e a dívida bruta caiu 15,26 pontos do PIB em dois anos, para 71,68%. Houve superávit primário, mas a inflação também ajudou: ela infla o PIB nominal e reduz o peso de uma dívida já contratada. Essa redução teve um custo para quem perdeu poder de compra. Em 2022, a LC 194/2022 (BRASIL, 2022b) limitou o ICMS sobre bens essenciais. Foi também nesse período que a LC 179/2021 (BRASIL, 2021) deu autonomia ao Banco Central.

2023 e 2024, nova regra fiscal. A EC 126/2022 (BRASIL, 2022a) abriu espaço para despesas, e o déficit primário de 2023 foi a 2,28% do PIB. Vieram o regime fiscal da LC 200/2023 (BRASIL, 2023a) e a reforma do consumo (EC 132/2023; BRASIL, 2023b). O desemprego seguiu caindo. No fim de 2024, o dólar fechou a R$ 6,19.

2025 e 2026, juro de 15% e guerra. A Selic chegou a 15% e, em 2026, começou a cair, até 13,75% na reunião de setembro (BANCO CENTRAL DO BRASIL, 2026d). Pelo Decreto 12.079/2024 (BRASIL, 2024), a meta passou a ser contínua e é descumprida quando a inflação fica seis meses seguidos fora do intervalo. Em 2025, o IPCA em 12 meses ficou acima de 4,5% de janeiro a outubro. Em fevereiro de 2026 estava em 3,81%. Então veio a guerra no Oriente Médio (FMI, 2026c): em maio o índice já marcava 4,72%, e em setembro, 4,58%, pouco acima do teto de 4,5%. O petróleo Brent, que teve média de US$ 69 em 2025, deve fechar 2026 com média de US$ 96, segundo a agência de energia dos EUA (U.S. ENERGY INFORMATION ADMINISTRATION, 2026).

2.2 O número que resume o período

Somando os fluxos da Tabela 1 de 2020 até setembro de 2026, os déficits primários acumulam 10,9 pontos do PIB, dos quais 9,24 são de 2020. Os juros acumulam 46,4 pontos. Mesmo com crescimento e inflação abatendo boa parte disso, os juros são a maior parcela do déficit acumulado no período, em proporção superior a quatro para um. Este é o melhor argumento de Lara Resende, e ele se sustenta nos dados oficiais. A soma é uma aproximação feita com a posição de fim de ano, mas a ordem de grandeza não muda.

Gráfico de barras: de 2020 a setembro de 2026, juros somam 46,4 pontos do PIB e déficit primário soma 10,9
Figura 1. Juros e déficit primário somados de 2020 a setembro de 2026.

3 O Brasil entre as 20 maiores economias

3.1 Juros, inflação e crescimento

Tabela 2. As 20 maiores economias em 2026, por PIB em dólares
PaísPIB 2026 (US$ bi)PIB por pessoa (US$)Cresc. 2026 (%)Inflação 2026 (%)Taxa básica, set./2026 (%)Juro real esperado (p.p.)
Estados Unidos32.64295.2122,33,63,8751,1
China21.54615.3714,51,03,001,6
Alemanha5.47165.6991,32,72,50-0,6
Japão4.34235.4000,72,01,25-1,4
Reino Unido4.26861.1081,33,33,751,0
Índia4.0602.7507,05,05,250,9
França3.55451.4480,42,42,500,3
Rússia2.86119.9530,96,114,009,2
Itália2.70245.8860,83,32,50-0,3
Brasil2.65512.3972,24,413,759,7
Canadá2.49060.1051,12,82,25-0,2
Coreia do Sul2.24643.5123,32,73,000,7
México2.17616.1911,53,86,502,9
Austrália2.11175.1721,93,94,601,5
Espanha2.08541.7562,53,72,50-0,2
Turquia1.81821.0792,731,237,0010,5
Indonésia1.4805.1535,13,35,753,0
Países Baixos1.42478.5351,52,92,50-0,3
Arábia Saudita1.34336.577-3,31,94,502,3
Suíça1.136124.4781,90,70,00-0,8

Fontes: FMI, World Economic Outlook de outubro de 2026 (FMI, 2026a) (PIB, crescimento, inflação), e Banco de Compensações Internacionais (BANK FOR INTERNATIONAL SETTLEMENTS, 2026) (taxas básicas; Alemanha, França, Itália, Espanha e Países Baixos seguem o Banco Central Europeu). Juro real esperado: taxa básica menos a inflação projetada pelo FMI para 2027; cálculo do autor. É uma medida simples, útil para comparar, e não substitui o juro de mercado de cada país.

Entre os 20, o Brasil tem o segundo maior juro real esperado, atrás só da Turquia, cuja inflação passa de 30%, e à frente da Rússia, uma economia em guerra. O México, que também persegue uma meta de 3%, tem taxa básica de 6,50% e juro real de 2,9 pontos. A pergunta de Lara Resende, portanto, é legítima. Mas a inflação brasileira de 2026 (4,4%) está acima da inflação da maioria das economias da tabela: só Índia, Rússia e Turquia têm taxa maior.

Gráfico de barras com o juro real esperado das 20 maiores economias; Turquia 10,5 pontos, Brasil 9,7, Rússia 9,2
Figura 2. Juro real esperado nas 20 maiores economias.

3.2 Gasto, receita, juros e dívida

Tabela 3. Contas públicas do governo geral em 2026 (projeção do FMI, % do PIB)
PaísReceitaGasto primárioSaldo primárioJuros líquidosSaldo nominalDívida 2026Dívida 2031
Estados Unidos29,734,6-4,93,6-8,5126,8145,0
China24,331,3-6,91,1-8,0104,4122,1
Alemanha46,950,3-3,40,9-4,364,675,6
Japão36,037,2-1,20,3-1,4199,4188,9
Reino Unido39,740,8-1,12,6-3,8102,0100,2
Índia21,023,2-2,25,3-7,583,175,1
França52,455,3-2,92,5-5,4118,5123,6
Rússia36,138,2-2,11,1-3,219,330,7
Itália47,846,81,03,9-2,9137,9135,6
Brasil40,540,9-0,37,8-8,197,0105,3
Canadá42,144,6-2,6-0,1-2,5115,6107,0
Coreia do Sul34,235,2-1,00,3-1,347,349,7
México24,923,21,75,9-4,262,164,5
Austrália36,638,7-2,21,0-3,252,654,3
Espanha43,744,0-0,22,1-2,497,689,4
Turquia29,529,9-0,42,7-3,122,525,4
Indonésia14,014,6-0,62,3-2,941,741,6
Países Baixos43,545,5-2,00,7-2,745,448,0
Arábia Saudita21,827,7-5,90,5-6,535,448,7
Suíça32,532,8-0,20,0-0,238,335,9

Fonte: FMI, Fiscal Monitor e World Economic Outlook, outubro de 2026 (FMI, 2026b). Gasto primário: receita menos saldo primário. Juros líquidos: gasto total menos gasto primário. Saldos arredondados, sem ajuste de soma; os juros líquidos podem divergir do saldo nominal em razão de bases diferentes. O FMI usa conceito de dívida bruta mais amplo que o do Banco Central, por isso o Brasil aparece com 97% aqui e 82,93% na Tabela 1.

Três leituras decidem o debate.

O saldo primário brasileiro é um dos melhores. Só México, Itália, Suíça e Espanha têm saldo melhor. Estados Unidos e China têm déficits primários de 4,9% e 6,9% do PIB, muito maiores que o nosso.

A conta de juros é a maior das 20. São 7,8% do PIB, à frente de México (5,9%) e Índia (5,3%). Aqui está o peso específico do Brasil.

O gasto primário também é alto. São 40,9% do PIB, perto do Reino Unido e bem acima dos emergentes da lista: Rússia 38,2%, China 31,3%, Turquia 29,9%, Índia e México 23,2%, Indonésia 14,6%. A renda por pessoa, de US$ 12.397, é inferior à da China e à do México. O equilíbrio primário existe porque a receita também é alta para um país emergente: 40,5% do PIB nesse conceito do FMI, e 32,40% de carga tributária bruta em 2025 (BRASIL, 2026a), pelo cálculo do Tesouro. Dizer que o Brasil não tem problema de gasto, olhando apenas o saldo, omite essa metade da conta.

Gráfico de barras com os juros líquidos em porcentagem do PIB nas 20 maiores economias; Brasil 7,8, México 5,9, Índia 5,3
Figura 3. Conta de juros em 2026, em porcentagem do PIB.

3.3 O que a tabela não mostra e o Banco Mundial mostra

Entre os 20, o Brasil tem a menor taxa de investimento, 16,8% do PIB em 2025 (BANCO MUNDIAL, 2026); a China está em 39,7% (2024), a Índia em 31,7% e o México em 22,4%. Tem também a maior desigualdade de renda entre os 19 com dado disponível, índice de Gini de 50,3, em que quanto mais perto de 100, mais desigual (BANCO MUNDIAL, 2026), e a 18ª produtividade por trabalhador (BANCO MUNDIAL, 2026), à frente só de Indonésia e Índia. Em pesquisa e desenvolvimento (BANCO MUNDIAL, 2026) aplica 1,2% do PIB (2023), contra 2,6% da China e 4,9% da Coreia. A discussão sobre juros importa, mas estes números explicam por que o país cresce pouco mesmo quando o juro cai.

3.4 O oitavo lugar: verdadeiro, com três ressalvas

A informação é correta. Segundo o banco de dados do FMI (FMI, 2026a), divulgado em outubro e noticiado pela Agência Brasil (AGÊNCIA BRASIL, 2026), o Brasil passa do 10º lugar em 2026 para o 8º em 2027 e fica nele até 2031. Trata-se de uma projeção de banco de dados, não de uma nota sobre o Brasil.

Tabela 4. Posição do Brasil no PIB mundial em dólares
2010 a 2014201720192020 e 2021202220232024 e 202520262027 a 2031
7º8º9º12º11º10º11º10º8º (projeção)

Fonte: FMI, World Economic Outlook de outubro de 2026; ordenação do autor entre os países da base.

Primeira ressalva: o câmbio pesa mais que a produção. Em 2026, o PIB brasileiro em dólares sobe 16,4% na projeção do FMI, com crescimento real de 2,2%. O restante é inflação e real mais valorizado na conversão. A passagem à frente da Rússia em 2027 ocorre porque o PIB russo em dólares cai de US$ 2.861 bilhões para US$ 2.675 bilhões, não porque o Brasil dispare: o FMI projeta para o Brasil crescimento de apenas 1,9% naquele ano.

Segunda ressalva: a margem é mínima. A diferença para a Itália em 2027 é de 0,9% (US$ 2.796 bilhões contra US$ 2.772 bilhões). Convertendo o PIB nominal de R$ 14.782,9 bilhões do orçamento de 2027 (BRASIL, 2026d) pelo dólar de R$ 5,42 de 30 de outubro, o resultado é de cerca de US$ 2.727 bilhões, o que deixaria o Brasil atrás da Itália. A conta é só ilustrativa, porque cruza fontes diferentes, mas mostra como a posição depende do câmbio.

Terceira ressalva: tamanho não é padrão de vida. Na medida que corrige as diferenças de preço entre países (paridade de poder de compra), o Brasil já é o 8º em 2026. No PIB por pessoa em dólares, é o 83º de 191, abaixo da média mundial (US$ 12.397 contra US$ 15.889).

Cartão com as três ressalvas ao oitavo lugar: alta de 16,4% em dólares contra 2,2% real, 0,9% de vantagem sobre a Itália, 83º lugar no PIB por pessoa
Figura 4. As três ressalvas ao oitavo lugar projetado pelo FMI.

4 A dinâmica: a Selic contra o gasto

4.1 O que a lei diz sobre a "função social" da Selic

A expressão "função social da Selic" não está na lei, mas a ideia tem base nela. A Constituição diz que a ordem econômica tem por fim "assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social" (BRASIL, 1988, art. 170) e que o sistema financeiro deve "promover o desenvolvimento equilibrado do País" e "servir aos interesses da coletividade" (art. 192). O art. 164, § 1º, proíbe o Banco Central de emprestar ao Tesouro.

A Lei Complementar 179/2021 (BRASIL, 2021) define a hierarquia. O art. 1º fixa o objetivo fundamental, que é "assegurar a estabilidade de preços". O parágrafo único acrescenta, "sem prejuízo" desse objetivo, zelar pelo sistema financeiro, "suavizar as flutuações do nível de atividade econômica e fomentar o pleno emprego". O Copom repete essa fórmula em suas atas.

O art. 2º tem uma consequência que costuma passar despercebida: as metas são do Conselho Monetário Nacional, e o Banco Central só conduz a política para cumpri-las. Mudar a meta não fere a autonomia do Banco Central, porque essa decisão nunca foi dele. Já a fixação da taxa pelo governo feriria, pois a lei reserva ao Banco Central, de forma privativa, a condução da política monetária.

4.2 O governo acelera e o Banco Central freia?

Em parte, sim. O próprio Copom registra em ata (BANCO CENTRAL DO BRASIL, 2026d) que a política fiscal estimula a demanda no curto prazo e pode afetar a percepção sobre a dívida e o prêmio exigido nos juros longos. Lista entre os riscos de alta os estímulos à demanda, sobretudo ao consumo, que levem a economia a crescer acima do potencial. E diz que o crédito direcionado e a incerteza sobre a dívida podem elevar a taxa de juros neutra, aquela que não acelera nem freia a economia.

Os dados do Tesouro mostram o tamanho da despesa: de janeiro a setembro de 2026 (BRASIL, 2026b), a despesa do governo central cresceu 5,4% acima da inflação, chegando a 19,20% do PIB em 12 meses, dos quais 17,42% são gastos obrigatórios, conforme o relatório do Tesouro (BRASIL, 2026b). O problema é que o quadro não é tão simples quanto "gasto alto, logo economia quente", por três motivos.

Além disso, a meta fiscal tem deduções. O relatório do Tesouro (BRASIL, 2026b) registra R$ 67,3 bilhões de despesas excluídas da meta em 2026, e o orçamento de 2027 (BRASIL, 2026d) prevê R$ 64,7 bilhões: a meta é superávit de R$ 73,2 bilhões, mas, sem as deduções, o resultado efetivo projetado é de R$ 18,6 bilhões.

A imagem de "enxugar gelo" é boa, mas incompleta. O gasto contribui, os juros de 13,75% têm seu próprio custo fiscal, e os dois se alimentam: juro alto aumenta a dívida, a dívida maior aumenta o prêmio de risco, e o prêmio mantém o juro alto.

5 O que Lara Resende propõe, e onde tem razão

A proposta tem quatro partes. Criar um Conselho Fiscal e Monetário Nacional, que definiria metas fiscais e monetárias para quatro ou cinco anos. Anunciar a meta de inflação junto com uma meta para a Selic, em um intervalo entre a meta de inflação (3%) e o crescimento nominal potencial (cerca de 5,5%). Levar a Selic, em cerca de 12 meses, para perto de 7,5%, com uma margem transitória de 2 pontos. E usar as reservas, se necessário, para suavizar a depreciação do real, caso capitais especulativos saiam do país.

O autor sustenta que isso geraria economia de cerca de 4% do PIB ao ano. A conta aritmética está certa: 5,18 pontos a menos sobre 80% do PIB dão 4,14% do PIB.

Conferidas nas fontes oficiais, estas afirmações dele se confirmam:

Há ainda um precedente a favor, que ele não cita no artigo: de 2017 a 2019, a Selic ficou entre 7,0% e 4,5%, com o IPCA entre 2,95% e 4,31% (série 432 e 13522). Juro baixo no Brasil não é impossível. Mas aquele período tinha regra fiscal crível e desemprego acima de 11%, e o de hoje tem desemprego de 5,2%.

6 Os pontos questionáveis da proposta

6.1 "Único motor" é exagero

Os juros são o maior componente da dívida, mas não o único. A nota do Banco Central decompõe a alta da dívida bruta em 2026: juros, emissões líquidas e crescimento do PIB em sentido contrário. E, mais importante, o juro não é independente da política fiscal. O Banco Central controla a taxa de curtíssimo prazo. As taxas longas são definidas pelos compradores de títulos, que incluem nelas o risco que enxergam. Tratar a Selic como causa única ignora que parte dela é consequência.

6.2 A curva de Phillips não desapareceu

Lara Resende afirma que a relação entre desemprego e inflação deixou de existir. A literatura que examinei não vai tão longe. Hazell, Herreño, Nakamura e Steinsson (HAZELL et al., 2020), com dados dos estados americanos, concluem que a inclinação é pequena, não que seja zero. Benigno e Eggertsson (BENIGNO; EGGERTSSON, 2023) sustentam que ela é não linear e que a inflação dos anos 2020 veio em boa parte de um mercado de trabalho muito apertado, situação em que a curva fica mais inclinada.

O caso brasileiro de 2015 a 2017 é um contraexemplo direto: o IPCA caiu de 10,67% para 2,95%, enquanto o desemprego subiu de 9,1% para 11,9% e a Selic ficou em 14,25% e depois 13,75% até o fim de 2016. Outras causas pesaram, como a queda dos alimentos e o câmbio, mas a afirmação de que recessão não reduz a inflação não se sustenta diante desses números. E o Copom descreve hoje um mercado de trabalho aquecido, com o desemprego em 5,2%.

6.3 Cochrane ressalva o que Lara Resende afirma

Este é o ponto mais importante. Lara Resende se apoia na teoria fiscal do nível de preços e em dois textos de John Cochrane, de setembro de 2026, para dizer que, com dívida curta, cortar juros reduz a inflação desde logo. Li os dois: "Reasons to Lower Rates" (COCHRANE, 2026a) e "More on lower rates" (COCHRANE, 2026b). A descrição do modelo está correta, mas o texto de Cochrane vem cheio de condições que a proposta deixa em segundo plano:

Dizer que Cochrane defende cortar juros é mais do que ele sustenta. Ele descreve o que um modelo produz e declara não ter convicção suficiente para recomendar a medida.

6.4 As duas pernas do argumento puxam para lados opostos

Aqui entra uma análise deste autor. A proposta promete duas coisas ao mesmo tempo: a inflação cai com o juro, e a conta de juros cai 4% do PIB. Para a dívida em relação ao PIB, porém, o que importa é o juro real, a diferença entre o juro e a inflação, comparado com o crescimento. No argumento neofisheriano que Lara Resende usa (a ideia de que juro nominal menor, mantido por tempo suficiente, traz inflação menor), o juro real não muda com a Selic no longo prazo: a inflação é que cai junto.

Se a inflação cair ponto a ponto com o juro, a economia nominal de 4% do PIB vem acompanhada de PIB nominal crescendo menos, e o ganho real sobre a dívida some. Se o juro real cair de verdade, como Cochrane admite que ocorre no curto prazo com preços rígidos, então a política está frouxa e a inflação tende a subir antes de cair. A proposta precisa escolher em que medida quer cada efeito. Quanto mais forte a queda da inflação, menor o alívio real da dívida; quanto maior o alívio real, mais fraca a queda da inflação.

6.5 O juro de equilíbrio é o ponto decisivo

O teto final de 5,5% com inflação de 3% equivale a juro real de 2,5%. O Banco Central manteve em 5% sua estimativa de juro real neutro (VALOR ECONÔMICO, 2026) em junho de 2026, segundo o Valor. O Focus de 23/10/2026 (BANCO CENTRAL DO BRASIL, 2026e) projeta Selic de 10% e inflação de 3,5% em 2029 e 2030, ou 6,5 pontos de juro real. Lara Resende supõe que o juro real converge para o crescimento. Isso pode ocorrer num país sem prêmio de risco. Justamente por haver prêmio, o juro está onde está. O regime proposto supõe resolvido, por anúncio, o problema que precisa resolver.

6.6 As reservas não são "munição de sobra"

As reservas somavam US$ 364,5 bilhões em 28 de outubro (série 13621 do Banco Central). Parecem muito. Diante da dívida bruta de R$ 11,1 trilhões, cerca de US$ 2,05 trilhões ao câmbio de R$ 5,42, são 17,8%. E Lara Resende apresenta como vantagem o fato de a dívida estar com residentes, mas esses residentes também podem comprar dólar. Uma corrida não dependeria só dos 9,6% em mãos estrangeiras.

Há ainda um exemplo recente: em 2024, as reservas caíram de US$ 355,0 bilhões para US$ 329,7 bilhões, e o dólar terminou o ano a R$ 6,19, com a Selic em 12,25%. Usar reservas para defender uma taxa de juros vista como baixa demais é diferente de suavizar um choque. Comentaristas na TV afirmaram que as reservas se esgotariam em poucos dias; não encontrei conta oficial que sustente esse prazo, e por isso não o adoto. O risco é real, mas o prazo não pode ser afirmado.

6.7 A dívida curta é vantagem até a hora de rolar

Os 52% em LFT baixam de custo logo que a Selic cai. Os outros 48%, não. Para renovar títulos prefixados e corrigidos pela inflação, o Tesouro depende do preço que o comprador aceitar, e os vencimentos em 12 meses já são 19,95% da dívida federal (BRASIL, 2026c), com prazo médio de 4,10 anos. Se o corte for visto como político, a taxa longa pode subir enquanto a curta cai, e o Tesouro pagaria mais justamente na parte que precisa renovar. Dívida curta também significa renovar mais vezes, e cada renovação é um novo teste de confiança.

6.8 Os precedentes que pedem cautela

No Brasil, a Selic chegou a 7,25% no fim de 2012. A inflação subiu para 5,91% em 2013 e 6,41% em 2014, e chegou a 10,67% em 2015. A Selic foi a 14,25%. O período teve também crise fiscal e correção de preços administrados, de modo que o juro não explica tudo, mas o episódio foi de corte sem base fiscal. Na Turquia, os dados do BIS (BANK FOR INTERNATIONAL SETTLEMENTS, 2026) mostram a taxa cortada de 19% (agosto de 2021) para 8,5% (março de 2023), com inflação média de 72,3% em 2022 e 53,9% em 2023, segundo o FMI. A taxa depois precisou subir a 50%. As situações não são iguais: a Turquia tinha reservas frágeis e interferência direta do governo. Mas é o experimento recente mais próximo, e ele contraria a hipótese.

6.9 O conselho exige lei e altera a autonomia

Definir meta para a Selic por conselho contraria o art. 2º da LC 179/2021, que dá ao Banco Central a condução privativa da política. Para valer, exigiria nova lei complementar. A parte boa da ideia é a coordenação de metas fiscais e monetárias por vários anos, e ela pode ser aproveitada sem que ninguém fixe a taxa de juros (solução 9).

Cartão com os pontos em que a proposta de Lara Resende acerta e aqueles em que é questionável
Figura 5. A proposta de Lara Resende em resumo.

7 Os pontos questionáveis do outro lado

7.1 O mercado: "o problema é só o gasto"

Mesmo com um ajuste primário forte, os juros do Focus deixam a dívida subindo (Tabela 5, cenário D). Isso é aritmética: com custo de 10% e crescimento nominal perto de 5,6%, o superávit que estabiliza a dívida é de 3,5% do PIB (Tabela 6), algo que o FMI não projeta nem para 2031 (1,06%). Um ajuste assim, feito de uma vez, reduziria a atividade. O diagnóstico de que só o gasto importa não fecha a conta.

7.2 O vídeo: acertos

Três pontos do vídeo são confirmados pelos dados. A inflação é um problema mundial: o FMI projeta 4,7% em 2026 (FMI, 2026a) para o mundo. A guerra atrapalhou de fato uma desinflação em curso, como mostra a passagem de 3,81% em fevereiro para 4,72% em maio. E a defesa de pesquisa em minerais críticos em parceria com o setor privado é sensata: o Brasil tem 21 milhões de toneladas de reservas de terras raras, segundo o Serviço Geológico dos EUA (U.S. GEOLOGICAL SURVEY, 2026).

7.3 O vídeo: pontos a corrigir

Subir a meta para 3,5% ou 4%. Legalmente é possível, porque a decisão é do Conselho Monetário Nacional, e o vídeo está certo ao dizer que isso preserva a autonomia. Mas a conta tem outro lado. Pela identidade de Fisher (juro nominal é juro real mais inflação), meta maior significa, no longo prazo, juro nominal maior, não menor. O ganho é temporário: exige menos aperto na transição. O custo é o sinal de que o alvo muda quando fica difícil, num momento em que o Copom registra expectativas acima da meta em todos os horizontes. O Focus está em 3,5% para 2029 e 2030, e o próprio Copom projeta 3,2% para o primeiro trimestre de 2028, de modo que a meta atual não está fora de alcance. O vídeo lembra que nem os Estados Unidos conseguem manter a inflação em 3%, e o FMI de fato projeta 3,6% para eles em 2026. Mas a comparação pede um complemento: lá o alvo é ainda mais baixo, de 2%, segundo o Federal Reserve (FEDERAL RESERVE, 2025), e continua onde estava. O México, de renda próxima à nossa, também tem meta de 3%.

Crescer para pagar a dívida. Crescimento ajuda, mas não basta: o FMI projeta 1,9% para 2027, e o custo da dívida está em 12,63%. Nenhuma taxa de crescimento plausível cobre essa diferença sozinha, e o próprio aquecimento é o que o Copom está tentando conter.

Corte de gasto significa recessão. Depende de qual gasto e de quando. O FMI já projeta desemprego subindo de 6,2% em 2026 para 7,4% em 2029, mesmo sem grande ajuste. O FMI também concluiu em outubro (FMI, 2026a) que, em crises de custo de vida, transferências focalizadas e temporárias custam muito menos que medidas de controle de preços: estas podem exigir de 3 a 22 vezes mais recursos. Rever isenção mal desenhada ou emenda sem critério não atinge o mais pobre da mesma forma que cortar um benefício.

O sentido do argumento sobre a guerra. O vídeo atribui o choque a uma decisão de Donald Trump contra o Irã. Para os fins deste texto, importa o efeito, documentado pelo FMI, pelo Copom e pelo Tesouro. Vale acrescentar um dado que o vídeo não menciona: o Brasil é exportador de petróleo, e a alta também trouxe receita. O Tesouro registra alta em royalties e na comercialização de petróleo e gás, além do imposto de exportação sobre óleo bruto, junto com R$ 20,6 bilhões a mais em créditos extraordinários no ano.

8 O limite de cada caminho: um exercício de aritmética

A tabela a seguir não é previsão. Ela mostra o que cada conjunto de premissas produz na dívida bruta, partindo de 82,93% do PIB em setembro de 2026. O custo combina a parte atrelada à Selic (52%) e o restante, que se renova à razão de um quarto ao ano, próximo do prazo médio de 4,10 anos.

Tabela 5. Dívida bruta em % do PIB, por cenário
Cenário2027202820292030Alta no último ano (p.p.)
A. Rota do Focus, déficit primário de 0,5%88,894,299,4104,65,2
B. Lara Resende, tudo funciona (inflação de 3%, PIB de 2,5%, Selic até 6,5%)87,290,693,696,02,4
C. Lara Resende, credibilidade falha (Selic em 7,5%, inflação de 6% a 8%, prêmio nos títulos longos)85,987,088,490,21,8
D. Só ajuste fiscal, com juros do Focus e PIB menor88,292,695,998,42,5
E. Combinação deste artigo (primário de -0,25% a +1,25%, Selic a 8,5%)88,392,495,597,62,1
Tabela 6. Superávit primário necessário para estabilizar a dívida em 82,93% do PIB
Premissas (custo da dívida / inflação / PIB real)Superávit primário (% do PIB)
Hoje: 12,63 / 4,58 / 2,24,46
Focus para 2029: 10,0 / 3,5 / 2,03,48
Início do regime de Lara Resende: 7,5 / 3,0 / 2,51,51
Teto final de Lara Resende: 5,5 / 3,0 / 2,5-0,06

Cálculo do autor. Premissas do cenário A: Focus de 23/10/2026 (BANCO CENTRAL DO BRASIL, 2026e). Os demais cenários são hipóteses construídas pelo autor para testar o argumento; valem como aritmética, não como projeção.

Quatro conclusões saem daí.

  1. Nenhum cenário estabiliza a dívida até 2030. Quem prometer o contrário precisa mostrar a conta.
  2. Mesmo a 7,5%, é preciso superávit de 1,5% do PIB. A proposta de Lara Resende, em sua fase inicial, não dispensa ajuste primário. Só no teto final, com juro real de 2,5 pontos, o primário zero bastaria.
  3. O cenário C é o que mais engana. Ele mostra a menor dívida, e o motivo é a inflação alta corroendo o valor real dos títulos, como em 2021 e 2022. No papel, a dívida melhora. Na vida real, quem paga é o assalariado, e a perda de renda e o risco de fuga de capitais não aparecem na tabela. Nesse cenário, é improvável que o Banco Central consiga manter a Selic parada em 7,5%.
  4. Juro e ajuste juntos reduzem o ritmo. No último ano do exercício, a alta da dívida é de 5,2 pontos no cenário A e de 2,1 no cenário E, sem supor que a credibilidade venha só de um anúncio. O crescimento desse cenário é premissa, não resultado, e ele ainda não estabiliza a dívida: o trabalho continua depois de 2030. Esta é a razão de propor um conjunto de medidas, e não uma só.
Gráfico de barras com a dívida bruta em 2030 em cinco cenários: 104,6; 96,0; 90,2; 98,4 e 97,6 por cento do PIB
Figura 6. Dívida bruta em 2030 em cada cenário do exercício.

9 Vinte soluções para 2027 a 2030

O que segue é a proposta deste autor, diferente das medições das seções anteriores. A meta de cada item é um objetivo sugerido para debate, não uma estimativa de resultado.

9.1 Moeda e juros

1. Trajetória de juros condicionada, sem teto em lei. O Banco Central mantém a decisão e publica as condições sob as quais aceleraria os cortes, vinculadas à inflação de serviços, às expectativas e ao cumprimento da meta fiscal. Meta: juro real esperado de 9,7 pontos para perto de 5 em 2030. Decide: Copom.

2. Manter a meta de 3% agora, com revisão marcada. O Conselho Monetário Nacional anuncia uma avaliação técnica do regime para 2028, depois de reancoradas as expectativas. Mudar a meta em pleno choque transmite fraqueza; revê-la com calma é decisão legítima. Decide: Conselho Monetário Nacional.

3. Regra pública para o uso de reservas. Atuação contra movimentos desordenados do câmbio, com critérios divulgados, e nunca como garantia de um nível de juros. Reservas são seguro. Decide: Banco Central.

4. Alongar a dívida à medida que os juros caem. Reduzir a parcela atrelada à Selic de 52% para cerca de 40% em 2030, aproveitando a queda das taxas. É o caminho oposto ao do modelo de Cochrane, e por um motivo: num país com prêmio de risco, o risco de renovação pesa mais que a elegância do modelo. Decide: Tesouro Nacional.

5. Atacar o spread bancário. A taxa do crédito com recursos livres está em 49,0% ao ano, e o spread médio em 21,6 pontos (BANCO CENTRAL DO BRASIL, 2026c), muito acima da Selic. Para famílias e empresas, este é o juro que importa. Melhores garantias, execução mais rápida, mais concorrência por meio de Pix e dados abertos. Meta: reduzir o spread médio em ao menos 5 pontos. Decidem: Banco Central, Conselho Monetário Nacional e Congresso.

6. Dar transparência ao crédito direcionado. Com 43,7% do crédito total nessa modalidade, todo subsídio deve aparecer no orçamento, com meta e avaliação. O Copom aponta esse crédito como fator que eleva a taxa neutra. Decidem: Fazenda e Congresso.

9.2 Contas públicas

7. Trajetória primária crível. Sair de déficit de 0,5% para superávit de pelo menos 1,25% do PIB em 2030, de forma gradual, sem o choque do cenário D. Decidem: governo e Congresso, nas leis de diretrizes orçamentárias.

8. Fim progressivo das deduções da meta. Os R$ 64,7 bilhões excluídos em 2027 devem voltar à conta. Meta fiscal com exceção crescente não convence quem compra título longo. Decidem: governo e Congresso.

9. Conselho fiscal independente, a parte boa da ideia de Lara Resende. Coordenação plurianual pública das metas, com avaliação técnica de um órgão independente, nos moldes de instituições fiscais que já existem no Brasil e no exterior, sem poder sobre a Selic. Decide: Congresso, por lei complementar.

10. Rever o que se indexa ao salário mínimo. O reajuste de 7,4% previsto para 2027 reajusta também o piso previdenciário e o Benefício de Prestação Continuada (BPC); a Previdência já custa 8,2% do PIB. A proposta aqui é debater quanto do ganho real se transmite a cada benefício, com proteção aos mais pobres. É medida de custo político alto, e por isso exige transição longa e proteção expressa a quem depende do piso. Decide: Congresso.

11. Teto e critério para emendas. A reserva de emendas de 2027 é de R$ 44,8 bilhões (BRASIL, 2026d), e as de comissão não têm reserva específica no projeto. Rastreabilidade conforme a ADPF 854 (CONTROLADORIA-GERAL DA UNIÃO, 2026) do STF, vínculo com planos e avaliação de resultado. Lara Resende também aponta este ponto. Decidem: Congresso e STF, no controle.

12. Aplicar o teto remuneratório. Fazer valer o art. 37, XI, da Constituição, reduzindo verbas fora do teto. O valor é menor que o de outras rubricas, mas pesa na legitimidade de qualquer ajuste. Também foi citado por Lara Resende. Decidem: Congresso e tribunais.

9.3 Tributos

13. Avaliar e cortar benefícios fiscais. A LC 224/2025 (BRASIL, 2025c) já iniciou a redução. O passo seguinte é prazo de validade e avaliação pública de cada benefício, para que continue só o que comprove resultado. Decidem: Congresso e Receita Federal.

14. Reforma do consumo sem novas exceções. Implementar a LC 214/2025 (BRASIL, 2025a) sem ampliar regimes especiais, porque cada exceção eleva a alíquota de todos os demais. Decidem: Congresso e Comitê Gestor.

15. Acompanhar a tributação de alta renda. Medir os efeitos da Lei 15.270/2025 (BRASIL, 2025b) e rever as isenções de aplicações financeiras. Juro alto pago a quem tem mais agrava a concentração de renda, e o Gini de 50,3 é o maior da lista. Decidem: Congresso e Receita Federal.

16. Estímulo à indústria sem exceção permanente. Vídeo e proposta concordam que reduzir o imposto da produção ajuda. O melhor caminho é devolver créditos com rapidez, acelerar a depreciação de investimentos e aproveitar o acordo Mercosul e União Europeia (BRASIL, 2026e), em vigor provisório desde maio de 2026. Decidem: Fazenda, MDIC e Congresso.

9.4 Crescimento e proteção

17. Levar o investimento a 20% do PIB. O Brasil é o último dos 20 (16,8%). Proteger o investimento público no orçamento, ampliar concessões e usar a queda dos juros para atrair capital de longo prazo. Decidem: governo federal, estados e reguladores.

18. Minerais críticos com pesquisa e mercado. A ideia do vídeo é adequada: o Estado financia pesquisa e dá segurança regulatória, e o setor privado instala a indústria. Levar pesquisa e desenvolvimento de 1,2% para 2% do PIB. Hoje, o FNDCT tem R$ 19,8 bilhões previstos para 2027 (BRASIL, 2026d), 0,13% do PIB. Decidem: Ciência e Tecnologia, Minas e Energia, e empresas.

19. Educação ligada à produtividade. O Brasil é 18º de 20 em produto por trabalhador. Ensino técnico, alfabetização na idade certa e avaliação de programas como o Pé-de-Meia (R$ 10,5 bilhões em 2027). Efeito demorado, mas é o que muda o crescimento potencial, e com ele toda a conta da Tabela 6. Decidem: União, estados e municípios.

20. Regra para choques externos. Guardar parte da receita extraordinária de petróleo em um fundo de estabilização e, nas crises, usar transferência focalizada e temporária no lugar de controle de preços, conforme a conclusão do FMI. Decidem: Fazenda e Congresso.

Lista das 20 soluções em quatro blocos: moeda e juros, contas públicas, tributos, crescimento e proteção
Figura 7. As 20 soluções, por bloco.

10 Conclusão

O número que pesa contra os juros é real: 7,8% do PIB, a maior conta entre as 20 maiores economias, com juro real atrás apenas do turco. André Lara Resende tem razão ao dizer que isso é insustentável e ao cobrar coordenação entre as políticas fiscal e monetária. Falta à proposta demonstrar por que o mercado aceitaria um juro menor por anúncio, por que as reservas bastariam e por que uma teoria que seu principal autor aceita "só mais ou menos" deveria orientar a décima maior economia do mundo.

O mercado tem razão sobre o risco e costuma errar a conta, porque nenhum ajuste primário realista fecha a dívida com juro de dois dígitos. O vídeo tem razão sobre o choque global e sobre a preservação da autonomia, mas a alta da meta traria alívio temporário por um custo de credibilidade. Quanto ao oitavo lugar, é uma boa notícia que depende do câmbio, com o país no 83º lugar em renda por pessoa.

A saída mais segura é a menos vistosa: juro em queda, porque há espaço, ajuste primário gradual, porque a conta exige, e reformas no spread, no investimento e na produtividade. O exercício deste artigo mostra que mesmo isso não estabiliza a dívida até 2030, apenas põe o país no caminho. Qualquer promessa mais rápida precisa apresentar a sua conta.

11 Limites deste artigo

As séries do Banco Central vão até setembro ou outubro de 2026 e o Focus usado é o de 23 de outubro. As projeções do FMI usam dados até 1º de outubro e podem mudar com a nova equipe econômica. Os cenários da Tabela 5 são aritmética com premissas declaradas. A comparação do juro real usa uma medida simples. O governo eleito não anunciou sua política econômica até a data deste texto.

Conteúdo informativo de caráter geral, com dados oficiais vigentes na data da consulta. As soluções são proposta do autor, e os cenários são exercício aritmético. Não é recomendação de investimento.

Referências

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